sábado, 6 de julho de 2019

UMA BUSCA DE SI!


    Em verdade eu vos digo. Isso é fato.
   Estive só por quatro dias, em uma viagem que fiz. Estava em busca de respostas, o que me é comum, mas desta vez estava só. Eu, a natureza, um belo rio, minha barraca, rodeado de montanhas e cachoeira. Havia vizinhos, porém, o contato era esporádico, na verdade um vizinho, um casal, um pouco distante de onde eu estava acomodado.
   Estava em busca de respostas, diante a conflitos existenciais. Em busca de respostas sobre Deus e minha espiritualidade. Em busca de respostas sobre solidão e retidão.
   ‘Ora at Labora’ – ore e trabalhe – assim nos deixou esse legado São Bento de Núrsia. Ora et Labora, foi o que fiz. Orações, meditações e trabalho para manter minha estada em algo agradável e organizada.
   Ao me dispor a ficar só, na mata, não sabia o que iria encontrar, digo encontrar dentro de mim, pois andava tenso, com raiva, ódio, e demais sentimentos como pode ser lido no texto ‘Simples Assim. O tempo ia passando, a manhã, a tarde, a noite. Um passar de tempo vagaroso, parecia que tudo estava parado. Eu ali naquele local, ora sentado contemplando o rio, ora indo até a cachoeira, permitindo ficar no presente, apenas estar ali.
   Nada de respostas. Ia vez e outra conversar com o casal vizinho. Me retirava. Ia caminhar na estrada de terra, apreciar a montanha e o céu com sua cor azulada. Buscava não pensar em nada e permitir que respostas viessem. E nada de respostas.
   Estava naquele local para me tornar uma pessoa melhor, em busca de algo que não sabia o que era. Apenas estava, já que minha condição mental e espiritual estava no limite.
   Vez e outra batia saudades de minha casa e de minha família, mas não podia voltar até o prazo que eu havia me dado, que acabou sendo reduzido a um dia a menos, pois iria chover no dia previsto de meu retorno, e não teria condições de desmontar o acampamento debaixo de chuva.
   A questão é que de fato nos dias em que passei não tive respostas racionais, mas senti muito alivio das condições psíquicas e espirituais. Paz. Paz. Paz. Serenidade diante a vida, ao tempo e às pessoas. Serenidade absoluta diante a tudo que me rodeia nesta vida.
   Não importa qual oração faça, Sou um.
   E ao conversar com um Romeiro que estava em um grupo grande, eu disse a ele: ‘Minha romaria é esta. Estar aqui, nesta natureza’. Qual natureza? A externa, física, ou a interna, sereno?
   Não acredito que ainda eu tenha tido as repostas, mas diante a solidão e retidão, tive o ímpeto certeiro de que só não sou, mas vivo em retidão. Retidão de espírito, um chamado para perceber e sentir que o que de fato importa nesta vida é estar em natureza.
   Quanto às repostas estas nos são dadas somente quando passamos pela serenidade.

Marcelo Barna, 06 de julho de 2019.

sábado, 29 de junho de 2019

SIMPLES ASSIM!


  Uma certa tristeza me toma nos últimos tempos. Por vezes acompanha-a o Ódio, a Raiva e o Desespero.
   Não há evidências óbvias sobre esses sentimentos, apenas os sinto, assim como um desejo de me isolar, pois já sinto que não desejo viver nesse mundo, apenas pertencer a ele.
   Esse isolamento já ocorre dentro de mim, na qual possuo uma vida quase que monástica, não possuindo amigos, não participando de festas e demais encontros que ocorrem, salvo raras exceções na qual minha família participa, digo minha família sendo apenas minha esposa e minha filha.
   Esse isolamento vem de observações que ocorreram durante minha vida na qual parece haver algo em mim que repele contatos e manutenção de vínculos familiares e de amizades. Talvez um chamado da alma.
  Sim a tristeza é presente não de hoje, mas já há tempos.
  Busco conforto na sabedoria e na filosofia, por vezes grega, por vezes cristã e por vezes hindu.
  Esses ensinamentos na qual me atenho promovem uma certa ‘expansão da consciência’ e uma maior observação do que ocorre a nossa volta, podendo nos trazer a um mundo na qual somente a nós pertence, como diz São Paulo na carta aos Coríntios: o “Por que a minha liberdade haveria de ser julgada por outra consciência” e em outro trecho anterior a esse, o mesmo diz: “Guardai a tua fé para ti mesmo”.
  Essas buscas representam a dor de um pensamento reflexivo junto a uma alma inquieta o que leva muitas vezes a solidão e não compreensão de quem conosco convive e aos olhos e julgo dos desconhecidos.
  Epicuro disse “viva oculto” assim não terás tempo para se preocupar com coisas do mundo e sim somente das pessoas e do que de fato vale a pena preocupar-se: Com o ser, e aqui acrescento o Ser, com letra maiúscula, denotando a importância de manifestar em nós os anseios da alma e os desejos do Divino.
  Mas se diante de estudos, meditações, orações, mantras védico, o que faz que eu sinta essa tristeza e todos os desencadeamentos dela, pois a tristeza é um elemento como a sabedoria.
  Será que sabedoria e tristeza andam juntas? Será que a tomada de consciência de si move esses aspectos como ódio, raiva, desespero, dizendo que a alma está presa no corpo e precisará esperar o fim, para ela poder se libertar dessas amarras.
  Ora, guarde para ti a tua fé e meditemos um pouco sobre quem somos de fato e se de fato há culpa em existir. Felicidade é um momento, um ‘instante que desejamos que não acabe’ como menciona o Professor Clóvis de Barros Filho. Para se chegar a esses momentos na qual sou grato por tê-los na maioria do tempo que possuo, em minha atividade profissional, deve-se abdicar de condições exmas, sacrificar demandas e desejos, pois mortificando o corpo satisfaço a alma, segundo Eduardo Marinho, e Santo Agostinho quando menciona que devemos submeter o corpo à alma e não a alma aos desejos do corpo. Só assim encontramos a verdade.
  Então devo permitir a existência desse estado em que me encontro, e entender que também é um instante e isso acabará.
Simples assim.
                                                                                                Marcelo Barna, 29 de junho de 2019.

terça-feira, 11 de junho de 2019

UM CERTO DESTINO!


   Os Estóicos tinham razão. O destino por vezes nos impede de realizar nossa conduta.
   Falo isso em virtude de situações que vem ocorrendo. É me caro ausentar no trabalho, não gosto que isso ocorra pois como já venho falando, há em minha atividade uma responsabilidade, além de pessoal, uma responsabilidade social.
   Mas também, há a responsabilidade que possuo diante ao matrimônio e à filha que geramos.
   Bom, o fato é que os Estóicos diziam que há coisas que estão sob o nosso controle e, eventos que não estão sob esse controle. Àquilo que depende de mim está sob o meu controle, como pensamentos e decisões. Já aquilo que não depende, como a mudança do tempo, e mal-estares que acometem os outros, não estão sob o meu controle. E qual a relação com os Estóicos? A resposta é simples: toda escolha tem por necessidade um sacrifício de outra possibilidade. Dentre essa escolha, sacrifico o meu trabalho, pois o destino determinou que eu desempenhasse o seu desejo: Não ir Professar Filosofia e sim cuidar de minha filha e de seu mal-estar em virtude de uma virose, pois minha esposa foi acompanhar a mãe dela em uma  cirurgia. É disto que tratamos em nossas vidas, escutar e aceitar o que o destino nos impõe, mostrando nossa pequenez nas decisões diárias, como Jesus disse: ‘basta o dia de hoje’.
   Fico em casa, cuido, mas sacrifico a responsabilidade social e atendo à responsabilidade por assim dizer, Divina. Assim pratico a filosofia realizando a meditação diante às impossibilidades que coexistem na vida.
   Pode ser assim a nossa vida, ou neste caso a minha vida.

                                                                                                       Marcelo Barna. 11 de junho de 2019.



domingo, 26 de maio de 2019

O DIA EM QUE FUI AO CONFESSIONÁRIO



  Ontem estive no confessionário. Me recordo que a última vez que isso ocorreu foi na minha pré adolescência. Foi antes da missa das dezesseis horas.
  A questão que levei foi a de desejar saber o que é ser Cristão? Ora não havia ninguém na fila para se confessar, então aproveitei a oportunidade. Odeio filas e ficar esperando.
  Entrei na salinha apertada, um Padre, um senhor por volta de seus setenta anos, com um olhar inquisidor, talvez pela idade, fez o sinal da cruz, e me disse o que te traz aqui? Resposta: o que é ser cristão? Não acredito em pecado!
  Eu fiquei pronto para receber o sermão e provavelmente o discurso que iria me deixar irritado como sempre, que ser cristão é isso e aquilo, que precisa fazer isso e aquilo, que…que..que… sempre se deve… isso e aquilo.
  Bom mas para meu espanto nada disso ocorreu. Ao contrário, o Padre, lógico eu disse que havia tido uma vida dificil, filho de um pai alcoólatra, que nada deu certo até cinco anos atrás quando sem rumo e sem saber o que fazer, mas que no fundo já sabia, me inscrevi para ser professor eventual na rede de ensino do estado de São Paulo, na qual realizei um dos meus objetivos em cursar filosofia, apesar de já ter o diploma em psicologia. Concursei em dois mil e treze e tomei posse em dois mil e dezessete. Hoje sou professor em estágio probatório na disciplina de filosofia, na mesma rede. O Padre muito solicito começou um discurso mais voltado à razão do que propriamente às doutrinas da Igreja.
  Perguntou-me se eu acreditava em Jesus Cristo, e prontamente respondi que sim, mas eu não conseguia sentir o amor dentro de mim por Jesus, sabe aquela fé que observo, ao menos de fora em algumas pessoas. Então através dessa minha reposta o Padre me interpelou se eu amava alguém, e lógico que amo, respondi à ele que sinto amor pela minha família, pelo meu trabalho e pelos meus alunos, na qual dedico minha vida a isso, e praticamente somente a isso pois tudo praticamente gira em torno dos alunos e das aulas.
  Agora vem  o que me instigou à refletir. O Padre inteligentemente disse que a fé está relacionada ao amor, e Jesus Cristo deixou  o mandamento de amar aos outros como ele nos amou. Jesus não precisa que o amemos pois ele é Deus, e já possui o amor, nossa missão é amar aos outros seguindo esse mandamento. Fez referência a mais citações, e ainda falou que em primeiro a fé deve passar pela inteligência, entender a Palavra e o que Jesus deixou, para que assim possamos ter uma vida dedicada aos outros. Por fim me disse ainda que aquilo não era uma confissão, ou seja, aquele instante ali naquela salinha apertada com a missa iniciando, não era propriamente uma confissão e como um convite discreto me passou os horários que ele está ali para poder atender as pessoas. Lógico que entendi o convite e prontamente aceitei.
  Um Padre já com uma idade avançada, provavelmente, e como senti, dotado de sabedoria, e versado nas questões da Fé, com certeza não perderei a oportunidade de manter contato.
  Fiquei na missa, já que era a intenção mesmo, como venho fazendo aos sábados a tarde.
  Posso dizer que muito do que escutei vem de encontro com o vídeo passado em sala de aula sobre o tema amor, em que o Professor Clóvis de Barros Filho expõe três pensadores ou sábios a saber, Platão, Aristóteles e Jesus Cristo, tratando do amor em cada um e como estes pensaram o Amor. Por fim percebi e senti que estou no caminho talvez certo em ser um cristão, pois segundo o Amor em Cristo de acordo com o Professor e O Padre, a vida que vale a pena ser vivida é uma vida dedicada ao outro e não à conquista e acúmulos de bens materiais. Devemos criar tesouros que transcendem esse mundo, e esses tesouros e riquezas estão no espírito das pessoas, da humanidade e da natureza. Acho que estou estou no caminho.

Marcelo Barna. 26 de maio de 2019. O dia em que fui ao confessionário.  

quarta-feira, 15 de maio de 2019

HOJE COMPLETO MEIO SECULO DE EXISTÊNCIA


  Hoje completo meio século de existência. Não são cinquenta anos e sim meio século.
  Ora, meio século de existência é composto de experiências, algumas ruins outras boas. Gostaria muitíssimo de poder relatar esse evento e essas memórias apenas através de fatos bons, mas pode-se afirmar que em se tratando de vida e o existir, nesse percurso há também experiências não muito agradáveis. Se há arrependimentos? Em alguns momentos de minha parca memória sim, mas em outros não.
  Há de se lembrar que apenas estou vivo por ter sido salvo pela observação de meu avô materno que após o meu nascimento percebeu que havia algo de errado pois aquele recém nascido rejeitava o alimento que sua mãe lhe oferecia, o leite materno. Sim era para eu ter sido enterrado com poucas horas de vida e hoje não estaria aqui escrevendo exatamente na data em que completo meio século de existência. Fui salvo e se isso é bom ou não, posso dizer que hoje sim, foi bom. Fui salvo por um médico, que na época era o único especialista no mal congênito que me acometeu. Meus pais não tinham a quantia para pagarem a intervenção cirúrgica, pois éramos pobres e que pelo o que lembro parcelaram ou deram um jeito para cumprir com os custos operatórios. Mas isso foi só um detalhe, e hoje estou aqui, vivo.
  Meio século de existência, é para poucos. Não é somente o tempo mas sim como estou no tempo. Falando do instante presente, e só pode ser esse instante, alegro-me em afirmar que hoje tenho algo muito raro de poder ser encontrado nesses dias tão atribulados na qual o consumismo, a ostentação e o acúmulo de bens são imperativos categóricos que servem como referência para o vitorioso e a ilusão de ser bem sucessivo. Pois deste mal não sofro. Mas tenho ao menos, acredito ser minha posse, é o prazer e a satisfação de poder servir como um meio à educação, e digo à prática pedagógica junto aos estudantes, levando a estes o parco “saber” filosófico, longe dos gozos intelectuais e, mais próximo da convivência, aprendendo a escutar suas necessidades e esforçando-me a adaptar o conhecimento ao entendimentos dos jovens, para que possam em seus dia-a-dia usar algo, se vierem a usar, aquilo que lhes é passado nos encontros ocorridos nas aulas de filosofia.  Ah sim, nunca pedi para aluno ficar pelado em sala de aula, nem desfilar nu na escola. Jamais doutrinei nenhum jovem a seguir essa ou aquela ideologia, mesmo porque não sou doutrinável ou menos me esforço para não o ser. Não. Não ensino temas nem nada que vá na contramão da ética humana e ao desrespeito da individualidade, como falei em algum momento sobre minha responsabilidade e a confiança que o Estado de São Paulo depositou em mim, que os pais depositaram na escola que atuo, que a direção e a equipe gestora esperam que eu cumpra. Além de ter visto e revisado os livros didáticos e a matriz curricular do Estado de São Paulo, pois havia pensado que estava deixando passar algum tema, Após essa vasta revisão, não encontrei nenhum conteúdo programático que solicitasse a nudez em sala de aula, ou alguma dinâmica que o aluno encontrasse o animal que existe dentro dele que o levaria a imitação psicótica e desconfigurada de sua integridade mental. Por essas questões de responsabilidade e a ética que possuo, acredito que ninguém nunca me viu andando pelado e ou imitando animal, dentro ou fora da escola. Tenho respeito e ética, prezo pela ética, tão cara e valiosa para os filósofos gregos na qual me inspiram nesta completude de meio século.
  Levo essas considerações e essa pratica à minha família, na qual estou com minha companheira há vinte anos, mulher forte e batalhadora, que pariu uma filha linda, hoje com dez anos de idade, após termos sofrido algumas perdas. Foi de fato um milagre poder tê-la, já em idade avançada para tal feito e nas minhas dificuldades existências ter mantido minha  família junto.
  Hoje completo meio século de vida, e posso afirmar até esse instante que uma vida que vale a pena ser vivida é uma vida analisada como diria Sócrates, e ainda fazendo uso de um sábio contemporâneo é uma vida que temos a satisfação de podermos sentir o sentido dela participando do processo todo de construção da humanidade.
  Obrigado a todos e de fato faço votos que vocês que participam de minha existência possam encontrar dentro de vocês essa satisfação de viver e após ter encontrado, possam ainda viver manifestando esse milagre que pude vivenciar nesta existência.
Obrigado.

Marcelo Barna. 15 de maio de 2019. Completando meio século de existência.

domingo, 12 de maio de 2019

UMA BREVE HOMENAGEM ÀS MÃES.


  Uma breve homenagem a uma mãe que viu seu filho sofrer enquanto aguardava a chegada de sua partida pendurado, pregado, ensanguentado na cruz.
  Uma breve homenagem às mães que perderam seus filhos para a criminalidade social, às guerras insanas que permeiam a humanidade. Mães que neste dia não poderão ter ao menos o abraço de seus filhos pois jás estes em outro mundo.
  Uma breve homenagem às mães que perderam seus filhos após meses e anos na esperança de que a medicina pudesse salvá-los do mal que assolaram as vidinhas inocentes e sem uma causa aparente.
  Uma breve homenagem às jovens que de uma maneira ou outra são mães enquanto suas mães trabalham para levarem à mesa o alimento e, aos bancos o seu dinheiro para quitarem as contas. Jovens mães filhas que amam, cozinham, limpam a casa, levam seus irmãos a escola, deixam de almoçar e frequentam a escola enquanto ainda são crianças.
  Uma breve homenagem às mães que neste dia, de uma maneira ou outra, ainda em suas memórias e em seus corações lembram-se de seus filhos amados.

Marcelo Barna. 12 de maio de 2019. Dia das Mães.

terça-feira, 23 de abril de 2019

RECLAMANDO DA VIDA? ACORDA!


  Passei por uma família. Estavam debaixo da garoa, esperando não sei o que, em um mercado “Express”. Esses que se compra rapidinho. O mercado já estava fechado. A família estava em uma porta lateral. Eram umas vinte horas de uma segunda feira “garoenta”. De relance vi uma pessoa pegando uma caixa de papelão. Estavam com poucas roupas, mulheres de saia e blusinha fina. Acho que tinha uma criança junto. Eram ao menos umas cinco ou seis pessoas e por cima havia mulher idosa. Será que era alguma comida que sobrou ou somente recicláveis mesmo.          Mas sei que a noite estava fria e “garoenta”.
  Passei de carro. O farol estava aberto. Apenas olhei para o lado e vi essa cena. O curioso é que meu porta malas estava com um pouco de mistura para a semana. Eu estava dirigindo em sentido à padaria para comprar uns quatro pãezinhos e acabei comprando cinco. Depois da padaria iria ao mercado comprar algumas coisinhas. Poucas, pois o dinheiro está curto. Eu reclamava da vida. Pensava como iria pagar as contas e as compras, já que havia pago e pagaria o restante da via sacra da alimentação no cartão de crédito. Pensava e me preocupava. Ainda tenho que colocar gasolina para duas semanas. Tem o pedágio para duas semanas e mais uma semana de alimentação. O cartão, aahhh o cartão ainda vai virar somente no início do próximo mês. Como vou fazer? Me passava pela cabeça e enchia meus pensamentos. Saco, pensava, preciso dar um jeito de ter um dinheiro extra. Assim não tá dando. Mas amo o que faço. Sou professor. Tenho que ir para a “Paulista” vender meus livrinhos e quadrinhos”.... e por ai iam caminhando meus pensamentos. Ahh sim isso apenas em uns cem metros que gerou um enxame de pensamentos sobre o dilema das contas e compras para chegar ao final do mês.
  Passei ali e vi aquela família ou pessoas, dependendo de doação de caixas de papelão, ou alimentos e ou sei lá o que, mas que era algo para eles de extrema necessidade. Fazia frio, estava garoando e eles com pouca roupa, e ainda dependendo da boa vontade de alguém do mercado, naquele escuro.
   Acorda. Acorda. Acorda.
  Eu estava dentro de um carro. Tinha a mistura para a semana. Ia ainda na padaria e em outro mercado. Voltaria para casa. Tenho um trabalho que amo.
  Acorda, já era tempo de perceber que comida não falta, a gasolina sempre é colocada, o pedágio sempre é descontado em conta corrente, o cartão de crédito sempre é pago, a gasolina sempre é colocada, a casa sempre está pronta para me receber. E eu reclamando até ver que aquela família estava lá, dependendo da boa vontade de um mercado “express”, debaixo da garoa, no frio e com poucas roupas, dependendo de doação. Acorda.

                                                                       Marcelo Barna. 23 de abril de 2019. – Um relato pessoal.